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A crise da gigante Evergrande é o novo subprime?

O Evergrande Real Estate Group tomou a atenção dos mercados financeiros no mundo após o anúncio de risco de inadimplência. Esse anúncio colocou o mundo em estado de alerta.

Texto:A crise da gigante Evergrande é o novo subprime

Em 20 de setembro de 2021 o mundo entrou em estado de alerta. Economias foram tensionadas e bolsas de valores em todo o mundo sentiram em partes o impacto do anúncio realizado por uma das maiores empresas do setor imobiliário chinês, a Evergrande Real Estate Group. 

Desde o anúncio comunicando que, provavelmente, não conseguiria pagar suas dívidas com vencimento no dia 23/09, a empresa acumulou uma perda de mais de 80% do seu valor na bolsa chinesa. Até o momento em que este texto estava sendo escrito (06/10), a situação não foi regularizada.

Muitas dúvidas pairam sobre o dia a dia dos investidores. Temos as incertezas sobre o tamanho do impacto que uma possível quebra da Evergrande pode ter sobre o mundo, se haverá ou não uma interferência do governo chinês no caso e quais são os recursos que podem ajudar a nos proteger deste cenário.

Neste  artigo você tomará conhecimento dos principais pontos que atrelam o caso da gigante Evergrande com a crise de 2008 que levou o banco norte-americano Lehman Brothers a ruína.

Tenha uma boa leitura!




O que você vai aprender:



O que é a Evergrande?


Texto:A crise da gigante Evergrande é o novo subprime
Reprodução DW News

Fundada em 1996 pelo bilionário chinês Xu Jiayin, a Evergrande é a segunda maior incorporadora imobiliária do setor mais importante para o desenvolvimento da economia chinesa. A empresa possui mais de 1.300 projetos imobiliários concluídos em 280 cidades e uma clientela de mais de 12 milhões de chineses. 

Além disso, a empresa é responsável pelo emprego direto de cerca de 200 mil pessoas e, indiretamente, é responsável por, aproximadamente, 3.8 milhões de empregos. Em termos de influência sobre o PIB chinês, o setor de construção civil representa cerca de 7%, podendo chegar a mais de 20% se o cálculo for feito com base em produtos indiretamente ligados ao setor.

A Evergrande não é somente uma grande empresa dentro da economia chinesa. De acordo com a lista Forbes 2000, onde a empresa ocupa uma das posições, ela é nada menos que uma das maiores do mundo em questão de receita. Para se ter uma dimensão, o grupo possui um ativo estimado acima de R$1.9 trilhão (US$360 bilhões). Além disso, a empresa acumula cerca de R$600 bilhões em vendas em seus diversos ramos de atuação.

Um fato interessante sobre a empresa é o vasto catálogo de setores de atuação, sendo alguns deles o imobiliário, alimentício, veículos elétricos, bebidas, turístico e o de esporte. No último citado podemos destacar o time de futebol comprado pelo grupo e que hoje tem o seu exótico estádio de futebol em formato de flor de lótus sendo construído.


Apesar de toda imponência da empresa, a crise imobiliária chinesa parecia ter sido declarada


A crise da gigante Evergrande é o novo subprime?

O grande estado de confusão em torno da empresa começou partindo de um dos seus principais pilares de expansão, o endividamento. É válido reforçar que é comum que empresas em fase de crescimento contraiam dívidas para se expandir, entretanto, o caso da Evergrande é muito delicado. Atualmente, a empresa possui US$300 bilhões em dívidas, para se ter uma dimensão, ao fazer a conversão, baseada na cotação do dólar a R$5,47 (cotação no momento da produção deste artigo), atingimos o número de R$1.641.510.000.000,00, o que dá a ela o título de empresa mais endividada do mundo, onde a maioria das dívidas são dentro do sistema econômico nacional chinês e algumas com o mercado internacional.

No dia 20 de setembro de 2021, feriado na bolsa chinesa, o caos se instalou após o anúncio da empresa declarando que não conseguiria fazer o pagamento de parte das suas dívidas que venceriam no dia 23/09. O anúncio causou pânico e estremeceu grandes economias, até mesmo porque em setembro de 2020 a empresa já havia conseguido uma renegociação de uma dívida de US$13 bilhões que evitaram problemas naquele momento.

Apesar dos esforços da empresa para tentar levantar capital para realizar o pagamento das suas dívidas, ela falhou duramente. Partindo deste aglomerado de erros, muitos analistas e especialistas passaram a atrelar o acontecimento ao furo da bolha imobiliária americana em 2007/2008 que levou a quebra de um dos maiores bancos da época nos Estados Unidos da América (EUA), o Lehman Brothers.


O que foi o Subprime?

Antes de explicar qual é a relação entre EUA e China nas crises imobiliárias, é preciso explicar de onde vem o contexto da palavra subprime, no caso o título subprime que foi o grande impulsionador da segunda maior crise enfrentada pelos Estados Unidos, ficando atrás apenas do crash da bolsa em 1929.

Os títulos subprime são linhas de crédito concedidas àqueles credores que não possuem um nome tão bom na ‘praça’. Esse tipo de crédito de risco chegou no mercado americano nos anos 2000, o que possibilitou que muitas pessoas que antes não possuíam a chance de ter acesso a créditos devido a problemas de inadimplência, pudessem tomar empréstimos.

Em 2003, o juros americano beirava 1%, reflexo do forte desenvolvimento dos EUA. Todo o cenário de crescimento da economia foi um grande impulsionador para que os bancos criassem formas de “assegurar” através de hipotecas os empréstimos feitos por esses tipos de clientes, os NINJA: no income, no job or assets, traduzidos como, sem renda, sem emprego ou patrimônio.

Devido ao complexo e ruim histórico desse tipo de linha de crédito, ela recebeu o carinhoso nome de “crédito podre”, o que já dá para imaginar como foi um forte catalisador no apodrecimento econômico naquele momento.

A bolha começou a entrar em colapso quando o governo americano se viu diante da necessidade de aumentar os juros, assim, resultando na inadimplência dos investidores que não conseguiam mais pagar as dívidas tomadas. 

A extensão da crise do subprime – também chamada de crise imobiliária – foi assustadora! Muitos bancos pequenos foram fechados e outros receberam ajuda do governo, mesmo que tardia. 

Entretanto, devemos dar um forte destaque ao fechamento de um dos principais bancos americano, o Lehman Brothers, que teve de encerrar suas atividades na crise de 2007-2008. É neste ponto em que as histórias se repetem e se cruzam, afinal, o setor imobiliário é um forte agente no desenvolvimento de grandes economias e, como percebemos, pode ser uma grande fonte de problemas econômicos. 


O setor imobiliário como pilar de desenvolvimento econômico

Grandes economias refletem o forte crescimento em infraestrutura urbana e imobiliária. Esses indícios são claramente perceptíveis nos dois cenários apresentados anteriormente. No caso americano, o avanço imobiliário sofreu duros impactos com a distribuição irresponsável e irregular de crédito a pessoas que não seriam capazes de arcar com suas dívidas. No cenário chinês percebemos como a prática desenfreada de empresas de tomar dívidas para expansão pode, também, resultar em um impacto interno doloroso e, até mesmo, irremediável.

Ter uma casa própria é o sonho de milhões de pessoas em todo o mundo. Para algumas culturas esse é um sinônimo de status, para outras um requisito básico para construir família, por isso, por muitas vezes a expansão imobiliária reflete tanto o avanço de um país. 

No que diz respeito ao desenvolvimento econômico, o avanço de novos entrantes no cenário urbano, como o forte êxodo rural chinês dos últimos anos, representa o avanço econômico que pode ser percebido no gráfico abaixo que mostra o aumento do PIB da China.


Fonte: Country Economy


Agentes reguladores da economia chinesa 

Dentro do contexto chinês, há também uma antecipação em relação à bolha imobiliária, com sua política de nome “Three Red Lines”, o governo busca regular e “murchar a bolha” antes que ela fure. Essa política visa ‘desalavancar’ o setor imobiliário da China, que, como publicado em relatório da USB, tem acentuado os preços nos últimos 15/20 anos. Ela visa diminuir a especulação imobiliária no país e representa mais uma ação dos agentes reguladores chineses.


Todo esse impacto no desenvolvimento econômico, tanto desenvolvimentista como especulador, é sentido através do setor imobiliário e abre espaços para debates econômicos. Nesse caso, não poderia ser diferente ao se tratar dos aspectos que cruzam a Evergrande e a crise do Subprime. Afinal, como um setor tão importante pode gerar tantos problemas e desafios para economias já desenvolvidas? Seria a Evergrande o Lehman Brothers desta década?


O que os especialistas falam sobre Evergrande e Subprime

O primeiro fator que devemos evidenciar é que mesmo possuindo caminhos muito parecidos, originando no setor imobiliário e afetando o setor bancário/financeiro, as crises possuem traços diferentes. Mesmo que muitos digam o contrário, há uma certa sensação de que a atual crise chinesa não tome as dimensões do caso de 2008. Ao menos, essa é a expectativa dos especialistas devido à tradicional política chinesa, onde se acredita que o governo irá fazer algum tipo de intervenção para conter ou, ao menos, dissolver de forma mais saudável toda a crise construída pela irresponsabilidade da empresa. Esperamos assim, os próximos passos que serão dados pelo governo de Xi Jinping.

Entre as hipóteses que cruzam o cenário, estão a possibilidade de total intervenção do governo chines para garantir que a empresa não entre em ruínas. Essa hipótese seria a forma mais rápida de controlar a situação da empresa, ou seja, sua estatização. A segunda hipótese seria a intervenção parcial, que pode resultar na dissolução da empresa de forma menos impactante, onde o governo assumiria para garantir a liquidez do sistema financeiro. Por último está a não intervenção, o que significa que o governo não faria nada, deixando, assim, que o próprio mercado se regule.


Texto:A crise da gigante Evergrande é o novo subprime

A intervenção do governo chinês e seu sistema socialista de mercado

É de comum conhecimento que a China é um país de partido único, o Partido Comunista, esse que se autointitula inserido em um sistema próprio chamado ‘socialismo de mercado’ ou, como chamado por outros, ‘capitalismo de estado’. Esse sistema político-econômico é composto por dois vieses que se divergem em muitos outros sistemas. Ele segue a linha socialista no âmbito da política e os princípios da economia de mercado. 

Pensando assim, é aguardado ao redor do mundo a intervenção dos chineses na economia. Muitos esperam que o governo faça uma ação que garanta a liquidez no mercado e evite o colapso que a quebra da empresa pode causar. O caminho não é o mais tranquilo e nem mesmo o mais fácil devido ao porte que a empresa possui. E economista Paulo Nogueira Batista Jr escreve sobre isso em sua coluna na Carta Capital, “evidentemente, a intervenção não será fácil para a China. A Evergrande é uma empresa de grande porte e haverá expressivo custo fiscal na absorção de suas obrigações pelo Estado ou por empresas públicas. Parte dessas obrigações, as dívidas bancárias internas, já são indiretamente passivos com o Estado, uma vez que a quase totalidade do sistema financeiro chinês é estatal.”, descreve o economista.

Portanto, devido a natureza apresentada pelo governo chinês, a atenção se vira para as atitudes que deles serão tomadas. Afinal, por mais que não se acredite ou se espere que a Evergrande seja um novo caso equiparado ao Lehman Brothers, entende-se que haverá sim um forte impacto nos demais cenários pelo mundo caso haja uma regulação pura e simplesmente pelo mercado.

Como  dito pelo economista-chefe da Capital Economics para Ásia à CNBC, a crise impulsionada pela Evergrande “seria o maior teste que o sistema financeiro da China enfrentou nos últimos anos”.


Impactos no mercado internacional

A China é a segunda maior economia do mundo, o que significa que as oscilações sofridas dentro do cenário econômico do país reverberam em outras economias menores ou até mesmo nas que estão a ela quase equiparadas, como a americana e a zona do euro. No dia 20/09, a maioria das bolsas ao redor do mundo apresentaram um desempenho ruim, reflexos dos anúncios e também das próprias políticas monetárias internas. A seguir você consegue observar os resultados dos principais índices mundiais.


Texto:A crise da gigante Evergrande é o novo subprime
Índice Brasileiro | Fonte: Investing.com

Texto:A crise da gigante Evergrande é o novo subprime
Índice Estadunidense | Fonte: Investing.com

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Índice Estadunidense | Fonte: Investing.com

Texto:A crise da gigante Evergrande é o novo subprime
Índice Alemão | Fonte: Investing.com

Texto:A crise da gigante Evergrande é o novo subprime
Índice Zona do Euro | Fonte: Investing.com

Texto:A crise da gigante Evergrande é o novo subprime
Índice Britânico | Fonte: Investing.com

Texto:A crise da gigante Evergrande é o novo subprime
Índice Japonês | Fonte: Investing.com

Texto:A crise da gigante Evergrande é o novo subprime
Índice Hong Kong | Fonte: Investing.com

Texto:A crise da gigante Evergrande é o novo subprime
Índice Chinês – Feriado entre os dias 19/09 a 21/09 – Festival da Lua – Mooncake | Fonte: Investing.com 

Nos históricos anteriores percebe-se que o ruído gerado pelo anúncio afetou praticamente todas as principais bolsas pelo mundo devido a forte influência da China nas exportações de produtos para suprir a demanda dos mais de 1 bilhão de habitantes. O reflexo atingiu principalmente os setores de commodities que estão ligados à construção civil, como o minério de ferro, que representa uma grande parcela de exportação do Brasil para o continente asiático.


Impactos nas exportações brasileiras

Em 2020, o Brasil enviou US$18,5 bilhões em minério de ferro aos chineses, esse número representa cerca de 27% das vendas feitas à China. A commodity fica atrás apenas da soja, que representou 31% da exportação no ano. Entre janeiro e agosto, o vínculo comercial com a China representava 67% do superávit brasileiro, segundo os dados do Indicador de Comércio Exterior (Icomex) do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV).

A dimensão da parceria comercial entre Brasil e China é extremamente forte, sendo o país asiático o maior aliado comercial do nosso país. As estruturas econômicas do país chinês afetam diretamente todo o sistema interno brasileiro e podem influenciar no desenvolvimento do país. 

Logo, fica o questionamento de como a bolsa de valores seria impactada.

É inevitável que a bolsa brasileira sofra influências de crises chinesas, principalmente, pelo motivo  das empresas mais importantes da bolsa serem também grandes parceiras comerciais chinesas. É preciso reforçar que o colapso e desaceleração da economia chinesa afetam diretamente o Brasil e suas relações comerciais exteriores, consequentemente afetando os investidores.


Texto:A crise da gigante Evergrande é o novo subprime
Crédito: Divulgação Vale / Weslley Allen

Como devemos nos preparar para cenários como esse?

Sabendo deste cenário complexo, podemos nos preparar para possíveis impactos. Reforçamos a necessidade de uma carteira pensada de maneira a ser antifrágil, logo, atendendo os critérios de diversificação e de fortalecimento a partir de cenários desafiadores.

Para se preparar você deve se manter por dentro das notícias que circulam sobre o assunto, pois assim poderá agir quando necessário. O rebalanceamento da sua carteira pode ser fundamental caso ela não esteja preparada para cenários de crise.

Evite agir no ruído, estude e faça análises para identificar se a empresa que está investindo está sofrendo queda por ruídos ou se teve seus fundamentos enfraquecidos.

Bons investidores se baseiam em estudo! Somente assim é possível tomar boas decisões. Evidenciamos que o caso Evergrande pode não ser tão assustador e também pode não tomar a dimensão como caso Subprime, mas é necessário o olhar vigilante.

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